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Café tropeiro, café cambona ou café de chaleira

A poeira se levanta na estrada, era sinal que uma comitiva estava chegando. O menino segue à frente de todos, à frente mesmo do dianteiro. Montado em uma égua mansa, a madrinha, o madrinheiro – como chamam o guri – guia a tropa ao som dos cincerros pendurado no pescoço do animal. A sua outra função era montar a trempe e preparar o café. Por que o café não pode falhar, nunca!

O café é uma figura típica em toda esquina atualmente. Servido a todas visitas, após o almoço ou como um combustível para as horas de trabalho. Um pingado, um café ao acordar ou acompanhado de um bolo. Parece que essa bebida sempre fez parte do Brasil, mas essa história vem do outro lá do Atlântico, no berço de todos. Nascida na África, o café passou por inúmeros lugares, ajudando a desenhar os despertares do mundo – até mesmo decretando a sina em suas borras.

Por aqui, o café também foi compartilhado de maneiras diferentes entre as regiões. E uma foram bem interessante de prepará-lo, veio dentro das comitivas de tropeiros sulistas. Eles representaram uma grande importância na formação social das regiões que passavam, inclusive na alimentação. O café ganhou espaço através dos caminhos feitos por mulas, pelas mãos desses homens que levaram o povoamento, aspectos econômicos e formações de cidades, sobretudo nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

A preparação do alimento é também é um aspecto importante e sinalizador cultural o qual chama as pessoas que compõem determinados grupos para participarem da partilha do tempo. Nas comitivas, principalmente, dos pampas, o modo de preparo é um atrativo turístico e, no mínimo, curioso para àqueles que só conhecem o café passado. Tomar um café tropeiro, é um ritual do gaúcho, assim como o chimarrão.

Introduzido pelos mascates turcos, vindos para cá em meados do século XIX, o café de campona ganhou adeptos. A semelhança entre esses dois modos é não coar o café. Como o Brasil é uma grande mistura de povos, o café não seria diferente.

A história do café sempre atravessou caminhos

Uma das bebidas mais famosas do mundo, surgiu na Etiópia há tempos, quiçá milênios. Um arbusto qualquer com algumas frutinhas chamou atenção de um pastor ao perceber que suas cabras estavam mais agitadas que o normal. Resolveu saber o que as motivaram a ter tamanha emoção. Provou o fruto e descobriu que era bom.

De lenda em lenda e distância em distância, o café chegou às terras árabes, especificamente em um monastério. Dizem que um frade, com intuito de exorcizar essa tal planta que fazia com as pessoas despertassem, jogou-as em uma fogueira. Subiu o aroma e descobriu que era bom. Acrescentou água e rezou a noite toda sem sono.

Logo, o café foi tomando conta da região, da economia. Foi contrabandeada mundo afora e chegou no Brasil, através de um momento de tensão. A fama de pacificador parece que sempre fez parte da genética brasileira, e entre uma negociação e outra de um conflito entre as Guianas, algumas sementes de café vieram parar no Brasil através de um buquê de flores.  Sabendo que tudo que se planta por aqui, vinga; perceberam um ótimo pretexto para seu cultivo – pronto, de lá para cá, o que era bom, ficou melhor ainda.

Do Porto de Santos, zarpa para o mundo um terço de todo café consumindo no planeta e algumas formas inusitadas de preparar a bebida. O café tropeiro, de cambona ou de chaleira foi um modo de fazer um cafezinho dentro dos acampamentos que é usada por quem acampa e em festas tradicionais do Sul.

A Tradição sulista do preparo do café

Dentro de um acampamento tropeiro, as obrigações eram divididas entre todos. Quem ficava responsável pelo café esquentava a água em cambonas, uma espécie de chaleiras de ferro. Quando a água fervia, fora do fogo, acrescentavam o pó de café. Um detalhe curioso, talvez para economizar espaço, era que o café era composto com açúcar. Neste momento, o aroma já tomava conta do lugar.

O pó deveria ser mexido na água até que se diluísse todo, assim poderia ser levado novamente ao fogo. Quando fervesse novamente, vinha um elemento um tanto inusitado: um tição, um pedaço de lenha ou carvão em brasa.

Fora do fogo, o tição aceso era colocado à mistura, mantendo um tempinho por lá. Nessa hora, o líquido entrava em ebulição, daí acontecia a mágica. Esse processo faz com que a mistura sofresse decantação, o pó se depositava no fundo da chaleira e o café ficava pronto para o consumo. Pura química e herança turca.

Nem sempre havia um tição para o preparo, mas isso não era o problema, porque o importante é a brasa. E como o jeitinho brasileiro é uma marca registrada daqui, usavam galhos ou até mesmo esterco seco de gado. Para acompanhar o cafezinho com esse gostinho de madeira no fundo, um pedaço de bolo frito, pão caseiro ou até mesmo uma linguiça.

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