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Em Lisboa, passeando com Fernando Pessoa

No livro “Lisboa, o que o turista deve ver”, Fernando Pessoa se coloca como cicerone a apresentar cada canto da cidade do jeito que desejava que ela fosse vista: rica de histórias.

O guia turístico escrito em inglês pelo poeta, em 1925, permaneceu inédito até 1992 e surpreendeu pela atualidade e pelo tema. Pessoa não gostava de viajar e escrever um livro para viajantes tinha um propósito: “ensinar” o turista a ver Lisboa à altura da sua grandeza, com mais de 800 anos de história de conquistas e reconquistas, berço da tecnologia que construiu naus e caravelas que levou Portugal e Espanha à Era das Navegações, mas que a Europa fazia questão de não lembrar. Talvez por isso não tenha utilizado nenhum dos seus heterônimos, mas seu próprio nome para apresentar a cidade que chamava de “lar”. Acreditava que Lisboa era mais do que cenários e para entendê-la era preciso contextualizar, entender como nasceu e como cresceu, entre fenícios, romanos e muçulmanos. Uma história contada em cada rua, em cada monumento, em cada cartão-postal da capital portuguesa. Hoje, mais de 90 anos depois, ainda podemos reconhecer os locais de que Fernando Pessoa fala, passear com ele e com todos os cicerones em que Pessoa puder se transformar, Bernardo Soares, Álvaro de Campos, Alberto Caieiro, que tal experimentar?

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“Convidaremos agora o turista a vir conosco. Servir-lhe-emos de cicerone e percorreremos com ele a capital, mostrando-lhe os monumentos, os jardins, os edifícios mais notáveis, os museus – tudo o que for de algum modo digno de ser visto nesta maravilhosa Lisboa”.

          Fernando Pessoa, Lisboa: O que o turista deve ver.

Dica de Pessoa: chegue por mar

Fernando Pessoa sugere que o viajante chegue por mar, para ter uma visão cartão-postal de Lisboa. Hoje, quando todos os meios de transporte nos levam até a capital de Portugal, a sugestão tem sabor de dica de residente. Dois terminais de cruzeiros situados na margem norte do Rio Tejo e cinco marinas, que recebem barcos privados e de passeios, garantem a famosa “Lisboa vista do Tejo”, o melhor dos dois mundos.

“À medida que o barco avança, o rio torna-se mais estreito, para logo alargar de novo, formando um dos mais largos portos naturais do mundo, podendo nele ancorar as maiores frotas. Então, à esquerda, as massas de casas agrupam-se vivamente como cachos sobre as colinas. E aí temos Lisboa”.

Fernando Pessoa, Lisboa: O que o turista deve ver

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Dica 2 – Localize-se do porto de Lisboa

 Antes de desembarcar, Fernando Pessoa sugere que o turista aviste do cais, à esquerda, a Rocha de Conde de Óbidos, local do Palácio Óbidos-Sabuga. “Uma elevação coroada por um bem tratado jardim a que se acede por duas largas escadas de pedra; do cimo desse mesmo jardim tem-se uma bela vista sobre o rio”. Hoje, as magníficas escadarias continuam lá, dando acesso ao jardim também conhecido como Jardim 9 de Abril ou Jardim das Albertas, mirante natural para uma vista privilegiada do Tejo e do vai e vem no cais. O palácio do conde também continua lá, virou sede nacional da Cruz Vermelha Portuguesa e ganhou a companhia do Museu Nacional de Arte, antigo convento das Albertas, freiras Carmelitas. Um belo passeio a programar.

Dica 3- Lisboa tem porta de entrada

A belíssima Praça do Comércio, construída após o terremoto de 1755, é descrita por Pessoa como a maior das praças de Lisboa, conhecida também como Terreiro do Paço. Dois enormes pilares monolíticos erguidos nas extremidades da praça e degraus de mármores conduzem o visitante ao centro da praça onde está a estátua equestre de 14 metros de altura do rei D. José I. Durante muito tempo essa foi a entrada nobre da cidade. Hoje, o Cais das Colunas está ainda mais integrado à cidade com a construção de um passeio ajardinado que leva até o Cais do Sodré e se tornou a praia fluvial do centro de Lisboa. Sentar e apreciar as cores do nascer e do por do sol no Tejo é uma experiência imperdível.

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“Passo horas, às vezes no Terreiro do Paço, à beira do rio, meditando em vão. A minha impaciência constantemente me quer arrancar desse sossego, e a minha inércia constantemente me detém nele”.

– Bernardo Soares, Livro do Desassossego

Dica 4- Visite as arcadas da praça

O poeta descreve a praça como “um vasto espaço, perfeitamente quadrado, contornado, em três dos seus lados, por edifícios de tipo uniforme, com altas arcadas de pedra. Os principais serviços públicos estão todos aqui instalados”. Verdade, a Praça do Comércio é uma das maiores praças da Europa, com 36 mil metros quadrados, local do palácio dos reis de Portugal por dois séculos, depois que deixaram o Castelo de São Jorge. O que ele não disse é que sob as arcadas está instalado o café e restaurante Martinho da Arcada, inaugurado em 1872, um dos pontos de encontro favoritos de Fernando Pessoa nos últimos 10 anos da sua vida, local onde costumava se sentar e trabalhar nos finais de tarde. Ele era um profissional autônomo, que trabalhava como correspondente comercial e tradutor e a maioria dos seus clientes estava ali, na chamada Baixa Pombalina. 

Dica 5 : Acesse o alto do Arco do Triunfo

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 Pessoa dá o endereço: “Do lado Norte da praça, perpendiculares ao rio, há três avenidas paralelas; a do meio parte de um magnífico arco triunfal de grandes dimensões, indubitavelmente um dos maiores da Europa… O grupo alegórico que coroa o arco, esculpido por Calmels, personifica a Glória coroando o Génio e o Valor”. Hoje o arco também é um mirante. Então, ultrapasse o arco e chegue à Rua Augusta. Lá se encontra o elevador no interior do arco, que leva a dois lances de escadas que dão acesso ao topo do monumento. Do alto, uma vista espetacular do Terreiro do Paço, da Baixa Pombalina, da , do Castelo de São Jorge e do rio Tejo. 

Dica 6 – Suba as colinas e veja além

“Explorar as sete colinas de Lisboa para desfrutar de “magníficos panoramas” é a sugestão de Pessoa, no entanto ele pede ir além dos fantásticos cenários naturais para também apreciar “a vasta, irregular e multicolorida massa de casas que constitui Lisboa”. Hoje, uma das maiores atrações da cidade são os “Terraços de Lisboa” distribuídos em todos os cantos da cidade. Hotéis, edifícios comerciais com localização privilegiada transformam seus terraços em mirantes particulares com direito a drinks e outros charmes.

Dica 7 – Chiado é dos poetas

Largo de São Carlos, número 4, 4º. andar, em frente ao Teatro São Carlos. Este é o endereço da casa onde nasceu Fernando Pessoa. Perto do Largo fica a Igreja dos Mártires, lugar onde Pessoa foi batizado e de onde ainda vem o som do sino que “soava dentro da sua alma”, como ele lembra em um dos seus poemas, Ó sino da minha Aldeia. No entanto, a Casa de Fernando Pessoa transformada em centro cultural fica longe dali, no bairro Campo de Ourique, onde o poeta viveu seus últimos 15 anos. Também no Chiado, o poeta mostra ao turista o Largo de Camões. O local era frequentado por Pessoa, ponto de encontro com outros escritores e também com sua namorada, Ofélia Queiroz, que morava no bairro. Ali, Fernando Pessoa mostra assim a estátua do poeta do Chiado “…um frade do século XVI, António do Espírito Santo, que abandonou o hábito para se tornar uma espécie de encarnação do espírito galhofeiro da época”. Mal sabia que ele próprio receberia também uma estátua no seu local preferido, no Café A Brasileira, onde pode ser encontrado sentado à mesa com uma cadeira vazia o lado, aguardando o próximo turista para uma selfie.

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Deliciosos roteiros de Lisboa podem ser criados baseados na obra e na vida de Fernando Pessoa. Inspire-se, assim como fizeram outros escritores e viajantes.

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Texto Publicado na Revista Férias&Lazer – Edição 55

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