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Geoturismo, quando contemplação e educação se encontram

Dizem que para mudar uma mesma paisagem, basta olhá-la de forma diferente. Então, vamos lá: como você olharia o Corcovado, no Rio de Janeiro, se ficasse sabendo que ele e as rochas ao seu redor se formaram há quase 600 milhões de anos? Que, na verdade, sua formação se deu abaixo da superfície da terra, a mais de 20 quilômetros de profundidade, sob pressões de pelo menos 7.000 vezes a pressão atmosférica e a temperaturas acima de 600 graus centígrados?

Ok, não é preciso saber tudo isso para curtir a paisagem deslumbrante do Rio aos seus pés, mas que fica mais interessante, ah, isso fica. E dá até vontade de saber mais. Especialmente quando sabemos que tudo isso está relacionado à lenta formação do enorme continente Gondwana que , ao se partir, formou os continentes da América do Sul, África, Austrália e Antártida e o Oceano Atlântico Sul.

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Depois de saber tudo isso, o Rio continua lindo, mas o Corcovado tem mais do que o Cristo Redentor lá em cima, não é mesmo?

O geoturismo ajuda a contar histórias assim, buscando formas e meios interpretativos que possibilitem o entendimento, a compreensão dos fenômenos geológicos (formação da Terra) e aspectos geomorfológicos (relevo terrestre, continental e marinho)  dos lugares visitados, traduzindo a paisagem para o viajante, oferecendo uma rara oportunidade de unir o prazer de contemplar um patrimônio geológico ao conhecimento mais amplo do lugar, inspirando naturalmente a geoconservação.

Viajantes motivados pela história da terra

Após a ação destruidora do tsunami na Indonésia em 2004, que atingiu 13 países, as Ciências da Terra passaram a integrar e contribuir com outras áreas do conhecimento. O turismo entra nesse contexto com o geoturismo, que propõe uma nova abordagem do meio ambiente, agregando conhecimento geocientífico a patrimônios naturais. É o caso dos Geoparques.

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O Geopark de Araripe, localizado no sul do estado do Ceará, foi o primeiro Geoparque das Américas reconhecido pela UNESCO. Criado em 2006, tem 3.520 quilômetros quadrados e conserva o maior número de registros fósseis do planeta do Período Cretáceo Inferior. Abrange seis municípios da região do Cariri, onde está localizada a Chapada do Araripe, e vários roteiros turísticos podem ser feitos nos nove geossítios localizados na região, sempre acompanhados por guias do parque, geólogos e biólogos.

Formas de praticar geoturismo

A geodiversidade pode ser explorada no turismo de aventura. Na Pedra do Peru, por exemplo, localizada no município de Monteiro, na Paraíba. A prática de rapel, escaladas e trilhas ecológicas são acompanhadas de informações sobre o local e sobre todo o percurso executado na caminhada. Ao pé da serra, uma área com fotos e painéis conta um pouco da história e curiosidades da Pedra do Peru, como os processos intempéricos (chuva, vento,etc) ocorridos durante anos que resultaram no afloramento dessa rocha com aparência semelhante ao bico de um peru.

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Uma forma diferente de praticar turismo religioso é fazê-lo acompanhado de informações geológicas. A três quilômetros de Juazeiro do Norte, na Colina do Horto, onde está localizada a estátua de Padre Cícero, encontram-se as pedras mais antigas do Geopark Araripe, com cerca de 650 milhões de anos e, no alto da colina, a 550 metros de altitude, além de apreciar o cenário, é possível saber mais sobre as rochas granito que se formaram ali, com manchas em pequenos cristais de cores preto, branco e rosa.

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Viajantes do Brasil e de vários lugares do mundo percorrem a Rota dos Tropeiros para conhecer as “estrias glaciais” na Colônia Witmarsum, no município de Palmeira, no Paraná. São marcas num afloramento de arenito que registram a existência de geleiras há 300 milhões de anos na região.

 Democraticamente, o geoturismo não se limita às paisagens naturais, de belezas cênicas. Chega também às áreas urbanas, com roteiros que envolvem desde a análise dos chafarizes de Ouro Preto, às pedras de pisos de shoppings, calçamentos de ruas, incluindo os tipos de rochas trabalhadas por escultores em diferentes obras pela cidade. Em São Paulo, um dos roteiros geoturísticos compreende uma visita ao Cemitério da Consolação, com a apresentação dos diferentes tipos de pedras, nacionais e estrangeiras, utilizadas na construção dos jazigos e nas obras de escultores renomados, como Victor Brecheret, que adornam vários túmulos de personalidades importantes da história.

Em plena era da informação, o geoturismo atrai especialmente viajantes que buscam unir conhecimento com lazer e consciência.

*Texto publicado na Edição 53 da Revista Férias&Lazer

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