Carregando...
''

Nos cenários de Guimarães Rosa

Caminhar ou cavalgar no cerrado mineiro entre veredas e buritis ou simplesmente ouvir poemas e trechos dos romances do escritor em cenários da sua infância são experiências de viagens inspiradoras.

As flores, os pássaros, a vida do sertanejo e seu linguajar característico foram sistematicamente registradas nos famosos “caderninhos” que Guimarães Rosa mantinha pendurados no pescoço, enquanto fazia a histórica cavalgada pelo cerrado mineiro, juntamente com sete vaqueiros conduzindo 198 cabeças de gado. Era maio de 1952, e ele sentia que precisava viver essa experiência de viagem e confessou a seu pai: “gosto muito do sertão, e escrevo sobre ele, mas me falta viver o sertão, me falta senti-lo, viver como os vaqueiros”. O percurso de 240 km foi feito da Fazenda Sirga, na cidade de Três Marias, até a Fazenda São Francisco, em Araçaí, Minas Gerais e concluído em 10 dias. E o resultado não poderia ter sido melhor para a literatura brasileira: o livro de novelas Corpo de Baile, de contos, Tutaméia e a sua  maior obra: Grandes Sertões: Veredas.

É possível viver um pouco dessa experiência. Anualmente são realizados eventos organizados por admiradores do escritor, como “Caminhos de Rosa”, caminhadas e ciclo-viagens, como a Peregrinação que leva 10 dias, começa em Andrequice, distrito de Três Marias/MG e termina em Cordisburgo/MG, cidade natal de Guimarães Rosa.  Caminho do Sertão é outro evento anual, realizado pela Agência de Desenvolvimento Integrado e Sustentável do Vale do Rio Urucuia, com o apoio da Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais. Compreende percorrer a pé a trilha por onde Riobaldo, personagem principal de Grande Sertões: Veredas, passou rumo ao Liso do Sussuarão. Como bons seguidores de Rosa, os próprios participantes se encarregam de conferir na paisagem passagens do livro, fazer leituras e referências da obra durante a caminhada.

Médico, diplomata, escritor, Guimarães Rosa falava sete línguas, dentre elas o esperanto. Lia em mais quatro idiomas, inclusive grego e latim, estudava gramática de mais 11, dentre eles do árabe, do sânscrito, do lituano. “Mas tudo mal” ele dizia, justificava que era apenas para compreender melhor o nosso idioma e também por diversão, gosto e distração. Como dizem que nada na vida de Guimarães Rosa era por acaso, tanto conhecimento justifica o “excesso” de neologismo em suas obras, as criativas invenções linguísticas que são sua marca registrada, como a palavra “nonada”, um termo que mistura “non” e “nada” para expressar algo sem importância.

Cordisburgo, cidade natal de Guimarães Rosa, localizada a 115 km de Belo Horizonte vive intensamente a fama de seu filho mais ilustre. Desde frases do escritor espalhadas em vários locais, até bares e lojas batizadas com o nomes das obras de Rosa. Os contadores de histórias de Cordisburgo, como o Grupo Miguilim, formado por crianças e jovens locais, desde 1995 narram trechos das obras do escritor e contam fatos da sua vida que ajudam a contextualizar as visitas.

Na cidade está a casa onde o escritor viveu os nove primeiros anos da sua infância, de 1908 até 1917. Ela foi transformada no Museu Casa Guimarães Rosa, com exposição de fotos, documentos, sua coleção de gravatas-borboleta, manuscritos originais ou datilografados, como do livro Tutaméia, que ganham vida na visita guiada pelos contadores de histórias. Todos os anos no mês de julho acontece no museu a Semana Roseana com palestras e atrações culturais que aproximam visitantes e a comunidade local das obras do escritor, reforçando a cidade como um destino cultural.

Na Praça Miguilim – nome do personagem de Guimarães Rosa do livro Manuelzão e Miguilim, está instalado o Portal Grande Sertão, cuja composição remete à histórica cavalgada de Guimarães Rosa. De autoria do artista plástico Léo Santana, o monumento é composto por esculturas em tamanho natural de seis sertanejos montados a cavalo e tipicamente vestidos, saudados pelo escritor.

Quem leu Sorôco, sua mãe, sua filha reconhece a estação de trem de Cordisburgo como o cenário principal desse conto de Rosa. Como está fechada, quem ajuda a contar essa história são os Miguilins que criam o clima perfeito. A estação foi inaugurada em 1904 pela então estrada de Ferro Central do Brasil, importante para o desenvolvimento econômico da região e considerada a porta de entrada para a Gruta do Maquiné.

E por falar na Gruta do Maquiné, a principal atração natural da cidade também entra no roteiro literário de Guimarães Rosa. No livro de poesias Magma, o escritor descreve em versos a beleza natural e pré-histórica da Gruta do Maquiné,  a caverna descoberta em 1825 pelo fazendeiro Joaquim Maria Maquiné, onde o naturalista dinamarquês, Peter Lund, em 1835, encontrou fósseis de animais extintos. Vale ler o poema enquanto caminha pelo interior da gruta iluminado de forma extraordinária. Antes de entrar, divirta-se no Museu da Gruta do Maquiné  que, com a ajuda da tecnologia, ajuda você a entender melhor a história e a natureza do lugar.

Os amantes de ecoturismo e de aventura na natureza podem conferir as paisagens da obra de Guimarães no Parque Nacional do Grande Sertão Veredas situado no noroeste de Minas, na Chapada Gaúcha, divisor de águas das bacias do rios São Francisco e Tocantins. É formado por veredas e chapadões típicos, numa área de 230.671 hectares onde estão preservadas as tipologias do cerrado mineiro descritas no livro. É a  única unidade de preservação do bioma Cerrado na região das gerais. Para conhecer o parque é preciso obter autorização, estar acompanhado de um guia e realizar a visita em veículos com tração nas quatro rodas.

O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam.

Grande Sertões: Veredas

 “Tomara aquilo se acabasse. O trem chegando, a máquina manobrando sozinha para vir pegar o carro. O trem apitou, e passou, se foi, o de sempre”.

Do conto Sorôco, sua mãe, sua filha, Primeiras estórias  

Flores de pedra,

cachoeiras de pedra,

cabeleiras de pedra,

moitas e sarças de pedra,

e sonhos d’água, congelados em calcário.

Trecho do poema Gruta do Maquiné, do livro Magma.

Texto Publicado na Revista Férias&Lazer – Ed. 57

Deixe um comentário