Carregando...
''

Você sabe o que é Ora-pro-nóbis?

Pelos idos de 1700, um menino estava a postos para o chamado da mãe. O padre iniciou a sua ladainha final, uma oração longa e em latim: era a deixa. “Corre, menino! Vá buscar a ora-pro-nóbis antes que o padre perceba!” O menino ia e lembrava da recomendação de tomar cuidado com os espinhos. Aquelas folhas gordinhas seriam o complemento da sua refeição, como de outras pessoas. Aspecto macio, uma espécie de carne dos pobres e proteção das igrejas cheias de ouro. O senhor padre não gostava muito que a pegasse, só quando estava lá falando a sua língua distante. Ora pro nobis, rogai por nós!

Minas Gerais é um país a parte dentro do Brasil. Peculiar, com memória e causos. Assim, uma das suspeitas sobre o ora-pro-nóbis, uma planta comestível não convencional (PANCs), que há séculos já compõem a culinária regional mineira, surge em meio às missas, com o “furto” da planta que servia para encher a barriga. Do latim, orai por nós.

01-INTERNA-Gastronimia

Como uma boa mineira, cresce sorrateira em muros, quintais ou mesmo na rua. Faz valer o bordão “come quieto” ou “pelas beiradas”. Vai crescendo, subindo em tudo – bem de manso – e quando se percebe, já ocupou um grande espaço. Agora, o espaço que ocupa é nos corações de chefes de cozinha famosos, não só ela como outros nomes curiosos, provenientes da cultura popular.

Curiosidade: a Pereskia aculeata – o nome científico da planta – é um tipo de cacto originário das Américas. Dá por todo lado, desde a Flórida, nos EUA, até em terras argentinas. Rústica, aguenta firme secas e pragas. Perfeita para o sertão mineiro e nordestino. Perfeita, inclusive, pelo seu valor nutricional. Rica em proteína, é uma hortaliça versátil que cai bem de caldos a saladas. Por que não dizer em pães?

 

Da lenda ao prato

Na época dos bandeirantes, quando o Brasil ainda engatinhava, havia uma lenda da “Grande Lagoa” próxima a uma montanha dourada que atraiu muitos curiosos e aspirantes ao garimpo. Para aqueles homens, era a certeza de ouro e riquezas. Mais tarde, surgiram as cidades históricas de Minas e a exploração do metal precioso pela coroa de Portugal. Para estudiosos, a geografia montanhosa proporcionou a corrida de entusiastas das riquezas para essa região e alimentou a fé pela prosperidade. E a crença é algo que todo mineiro sabe de cor, afinal, religião, igreja, missa, rezas, procissões e benzedeiras são predicados desses lados.

Inerente à cultura regional, um nome proveniente da liturgia, não seria mais que apropriado. Afinal, a religião anda lado a lado a outros aspectos culturais, como a culinária. Assim como a geografia e a história. Tudo isso serve para construir o povo como ele realmente é.

A ora-pro-nóbis faz parte de uma gramática própria dessa parte do Brasil, sobretudo, Sabará. Ganhou variações de nomes, uma espécie de apelido carinhoso e mais usual a um termo latino: lobrobô ou orabroró.

02-INTERNA-Gastronimia

Ainda em Sabará, acontece um festival gastronômico destinado à planta. Uma ode ao que era lenda e agora é servida em lugar de destaque, com as mesmas composições que sempre acompanharam a culinária mineira desse sertão e montanhas: galinha caipira, costelinhas e afins.

Curiosidade: a plantinha também vem ganhando paladares intencionais, servida em restaurantes famosos e influentes em outros cantos, agregando sabor e textura – e um pouco mais de Brasil.

Guimarães Rosa, em “Grandes Sertões: Veredas”, cita: “as coisas não têm hoje e ant’ontem amanhã: é sempre”. Esse sempre, é o cotidiano da ora-pro-nóbis dentro da vida das pessoas que a buscam como alimento, remédio, ornamento ou proteção.

Comer é um ato que leva muito mais que o sabor, é o compartilhar da memória e das raízes da terra. Imagina voltar ao passado por meio de um alimento? É possível sim! Valorizar esses ingredientes que muitos não fazem noção que são comestíveis, é uma forma de trazer mais o nosso país para dentro das casas, com artigos ricos e esquecidos. Com certeza, você já viu um pé de ora-pro-nóbis e nunca imaginou quanta história e sabor uma simples trepadeira de jardim possuía. Um mineiro, certa vez disse: “ Era feia. Mas era uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”. No caso, era alimento que furou todas as barreiras.

Conhecer um lugar é conhecer a culinária, que traz consigo diversas curiosidades, como a Ora-pro-nóbis. Embarque nessa viagem de sabor e aroma das peculiaridades gastronômicas do Brasil e do mundo conferindo os posts da categoria Gastronomia aqui no blog, e aproveite também para saber mais sobre a RDC Férias e o Plano de Férias Programadas, acessando: Plano de Férias Programadas, como funciona?

André Rodrigues

muito interessante a matéria parabéns !!!

24 de julho de 2018 | Responder
    Redação RDC

    Ficamos felizes que você gostou, André! Até a próxima! 🙂

    25 de julho de 2018 | Responder

Deixe um comentário