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Turismo Esportivo: o que o jogo diz sobre lugares e pessoas

Após uma semana andando por Istambul, ainda não tinha sacado qual era a daquela cidade. O lado turístico é tão bem consolidado e cheio de opções que você sempre se vê cercado de outros estrangeiros em infinitas opções de atividade. Ao sair à noite é possível conviver com os locais, mas num recorte muito específico da cidade: jovens urbanos que, na superfície de uma noite de festas, não parecem tão diferentes daqueles de São Paulo ou Londres. Foi ótimo, mas começou a dar aquela coceira de não estar sentindo, mesmo que por algumas horas, o que era ser uma pessoa que vive na maior cidade da Turquia.

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A virada aconteceu quando me juntei a um amigo para assistir a um jogo do Fenerbahçe, um dos times grandes de futebol da cidade, numa tarde de sábado. Desde a balsa para atravessar o Bósforo, passando pelo lanche pré-jogo na muvuca da rua cheia de torcedores até a catarse de cantar no miolo de uma multidão, foi o que me fez ver como é ser daquele lugar. Eu sabia que palavras eu cantava? Claro que não, apenas fazia sons parecidos com o que ouvia, mas foi o bastante para perceber que não estava mais só dentro do roteiro de um guia. Aquele era um sábado comum na cidade, assim era como eles agiam quando estavam entre eles e não quando queriam me vender mais um souvenir.

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O turismo esportivo tem esse poder. Por ser algo inserido em praticamente todas as sociedades, é fácil encontrar opções em qualquer destino, e a atividade é universal o bastante para que você possa ter a experiência do diferente enquanto acompanha algo que conhece muito bem, como o futebol, o basquete ou o tênis. Nada mais especificamente britânico do que um jogo de tênis em Wimbledon, mas qualquer pessoa que não fala uma palavra de inglês ainda é capaz de ir lá aproveitar. E mesmo falando ‘bolacha’ e torcendo para times de outros lugares é possível aproveitar um Fla-Flu no Maracanã. É o mais próximo que um paulista pode ser de entender o que é ser carioca por um dia, afinal.

Uma das coisas mais fascinantes do esporte é a possibilidade de ver uma história se desenrolar, sem script, diante de nossos olhos. Quando vemos um filme, por melhor ou pior que este seja, lá no fundo vemos a obra sabendo que tudo o que acontece lá foi definido com grande propósito por roteiristas e diretor. Há mensagem, intenção e linguagem. No esporte, não. Durante um jogo, cada um elege seu mocinho, seu bandido e até a moral da história enquanto a disputa acontece em tempo real. É um evento social, de união, organizado e televisionado, mas que começa sem que qualquer um saiba como vai terminar. Em 2017, na era Netflix, é só o esporte (e séries que envolvem dragões) que fazem países inteiros se reunirem para acompanhar algo que só tem valor no exato momento em que acontece, é o último bastião do ‘ao vivo’. E, acredite, vale a pena estar lá para ver.

Ir a eventos esportivos é um lado não muito explorado do turismo, mas um que vale muito a pena para aqueles que gostam de sentir uma atmosfera mais real das cidades que visitam. Um estádio é um lugar de expressão coletiva, de multidão, mas organizado o bastante para que qualquer forasteiro possa tomar parte. Essa atividade é mais desenvolvida nos EUA, onde se vende a experiência de acompanhar in loco uma partida de basquete da NBA ou de beisebol da MLB como algo válido até para quem não acompanha as modalidades de perto. Muito do apelo turístico vêm do entretenimento fora do campo, como diversas opções exóticas de comida (existe até cachorro-quente com churros no lugar da salsicha!), mascotes, música ao vivo e brindes por todo lado. Tudo isso é legal, claro, mas não é o único modelo. Na Europa, diversos estrangeiros vão a jogos de grandes clubes como Barcelona e Real Madrid para ver os melhores do mundo em ação ou só para sentir a atmosfera local. O futebol é parte fundamental da identidade das duas cidades e não existe conhecer uma coisa sem ver a outra.

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No Brasil não temos ainda esta tradição por levar muito a sério a questão da “fidelidade” ao nosso time do coração. Então corintianos se recusam a ver um jogo do Grêmio em Porto Alegre ou torcedores do Flamengo não se dão ao trabalho de ir ao Mineirão ver o Cruzeiro quando visitam Belo Horizonte. Creio que até pode ser mais divertido e revelador assistir uma partida de times do qual você não tem apego emocional –é mais fácil reparar nas nuances da torcida e da partida– mas é compreensível que isso engatinha na nossa cultura.

Um primeiro passo para ver o futebol como uma expressão cultural brasileira e, logo, algo digno de ser apreciado como turista, está fora das partidas. Que tal fazer a coisa mais turista de todas e ir a um museu? O Museu do Futebol, em São Paulo, é um ótimo ponto de partida. Fica dentro do Estádio do Pacaembu, construção pública e sem ligação com qualquer time, e trata do esporte como um todo, sem favorecimentos. O museu faz um ótimo trabalho de juntar material e pesquisa histórica, como documentos, objetos e vídeos dos primórdios do “ludopédio”, mas sem deixar o assunto estéril e sem emoção. Um dos pontos altos da visita é uma área sem decoração, localizada abaixo das vigas da arquibancada do estádio, onde só se vê os miolos da construção do Pacaembu e se escuta gravações altíssimas de cantos de torcida de todo o país. Mais do que os títulos mundiais, é aquele canto dos cantos que mostra o que o futebol representa para o Brasil.

Se depois de se emocionar no Museu do Futebol você aceitar que vale a pena visitar um local que não seja do seu time de coração, São Paulo oferece outras opções interessantes. Além das partidas oficiais dos campeonatos, é possível visitar museus e estádios de Palmeiras, São Paulo e Corinthians. O São Paulo oferece uma visita guiada pelo Morumbi, com pitacos da história do clube, visita ao vestiário e subida ao gramado ao som da torcida. O Palmeiras faz ação parecida, mostrando toda a pompa do seu moderno Allianz Parque e os inúmeros troféus do clube. Apenas o Corinthians divide os passeios: há o Memorial do Corinthians, na sede social do clube, no Tatuapé, com sala de troféus, galeria de fotos e objetos históricos e, em separado, uma visita à Arena Corinthians, em Itaquera, para conhecer o estádio que recebeu a abertura da Copa do Mundo de 2014. Como bom reflexo cultural que é o esporte, todas essas visitas são mais voltadas aos torcedores de cada time, com o devido puxa-saquismo de seus feitos, mas é possível de ser aproveitado por qualquer fã do futebol brasileiro e de sua história. Para os que gostam de grandes construções, legal também comparar as diferenças estruturais dos estádios mais antigos –Pacaembu e Morumbi– com os construídos nesta década, o Allianz Parque e a Arena Corinthians. São reflexos arquitetônicos de como o esporte era visto no passado, quando era um grande evento para as massas, e hoje, palco multimídia de um negócio bilionário.

Para quem não quer ou não tem tempo de ir aos palcos do espetáculo, não é menos revelador acompanhar a expressão social que o esporte provoca no resto da cidade. Em São Paulo, um bom exemplo é o Atrox Casual Club, uma loja de camisas de futebol na Galeria Ouro Velho, na Rua Augusta. O local é focado em camisetas históricas e foi criada por um fã de rock’n’roll e do West Ham, um time pequeno da Inglaterra. Se existe um lugar na cidade para achar aquela camiseta clássica de um time pouco conhecido, é lá. E ainda rende um papo sobre o lado B do futebol e classic rock com o dono da loja, Renato Martins. Não menos interessante é buscar os bares que toda quarta e domingo estão transmitindo futebol. Em São Paulo existe o Bar São Cristóvão, na Vila Madalena, com decoração temática de jornais antigos e flâmulas, e o Prainha Paulista, na Avenida Paulista, que costuma reunir turistas, moradores e trabalhadores da região que buscam um cantinho para ver como seu time está se saindo na rodada. Com clima mais amistoso e misturado que o de um estádio, um bar com telão é uma boa pedida para o fã de futebol neutro que quer descobrir como se xinga e vibra naquela cidade.

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Em um clássico texto sobre o tenista suíço Roger Federer, o escritor americano David Foster Wallace diz que a “beleza não é o objetivo do esporte competitivo, mas que o esporte de alto rendimento é o melhor lugar para se ver a beleza humana”. Defensor da ideia de ver jogos ao vivo, não na TV, ele diz que nos relacionamos e nos impressionamos com os grandes atletas pelo simples fatos de termos corpos. Em teoria poderíamos fazer o que eles fazem, e o fato de não conseguirmos é de um espanto irresistível. A soma dessa beleza, com a linguagem universal do esporte e sua capacidade expressão cultural é imbatível.

Nenhuma viagem está completa sem descobrir o que se joga e como se torce naquele lugar.

*Denis Botana é editor do blog Bola Presa (bolapresa.com.br) que analisa o basquete da NBA desde 2007. O Bola Presa é um blog que trata da NBA de uma maneira pouco apressada e muito analítica. Uma mistura de comentários sobre os jogos no calor do momento com pitacos sobre como cada momento se relaciona com o mundo, a sociedade e a história do basquete. Tudo com bom humor porque, afinal, é só basquete.

Texto Publicado na Revista Férias&Lazer – Ed. 56

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