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Um, dois, feijão com arroz. Três, quatro, muitas viagens num prato!

Um dos pratos mais simples e representativos do cotidiano brasileiro ganhou variações regionais, inspirando roteiros nada nada “feijão com arroz”

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Viajar faz parte desses dois ingredientes básicos da culinária brasileira. Antes de se “casarem” no Brasil viveram histórias diferentes. Nasceram separados histórica e geograficamente. Registros apontam a cultura do arroz original da Ásia, especialmente da China há cerca de 5000 anos. O cereal teria chegado à Europa pela Península Ibérica, quando das conquistas árabes na região, e navegado até o Brasil a bordo das caravelas portuguesas na época do descobrimento.

O feijão viajou menos. A história aponta o Peru, especificamente o sítio arqueológico de Guitarrero, com achados de tipos selvagens de feijões de cerca de 10.000 a.C. Como o feijão não fazia parte do cardápio português, o grão teria feito caminho inverso ao do arroz, com os colonizadores levando o feijão para o Velho Mundo.

A verdade é que juntos eles são demais! Formam uma proteína semelhante à carne e se completam: o que falta de nutriente em um, você encontra no outro.

A união perfeita na Feijoada Carioca

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O mais famoso “feijão com arroz” brasileiro, a clássica Feijoada Carioca, explica bem como aconteceu o casamento. O feijão preto com restos de carnes veio da comida preparada na senzala pelos escravos africanos;  o arroz foi trazido pelos colonizadores portugueses e a farinha de mandioca, como base alimentação indígena, teve participação garantida. A receita que conhecemos hoje data do final do período colonial, no século 19. A letra da música “Feijoada Completa”, de Chico Buarque de Holanda, dá a receita:

“Mulher, você vai fritar
Um montão de torresmo pra acompanhar:
Arroz branco, farofa e a malagueta;
A laranja-bahia ou da seleta.
Joga o paio, carne seca,
Toucinho no caldeirão
E vamos botar água no feijão”.

O bandeirante Virado à Paulista

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Do Rio de Janeiro vamos a São Paulo para saborear o Virado à Paulista “criado” pelos bandeirantes entre os séculos 17 e 18, que partiam do litoral de São Paulo rumo ao interior do Brasil para mapear especialmente as regiões Sul e Sudeste. O nome “virado” vem do resultado do chacoalhar das  bolsas sobre os lombos dos animais durante a expedição. Repletas de feijão pagão ( cozido e sem tempero), farinha de milho, carne seca e toucinho acabavam com os ingredientes revirados. Virou virado. O feijão cozido acabou se misturando à farinha para ganhar consistência de pirão com grãos inteiros. O arroz fez companhia.  O ovo frito foi parar sobre a bisteca de porco. A linguiça rolou sozinha amparada pelo torresmo, enquanto a couve refogada coloriu o prato e abraçou o doce sabor da banana colocada ao lado.

O viajante Feijão Tropeiro

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A viagem segue para Minas Gerais, em pleno século 18, quando a população e colonizadores só pensavam em ouro e os tropeiros aproveitaram para ir até eles vender animais e alimentos. Montados em mulas e burros, carregavam arroz, feijão, toucinho, farinhas de milho e de mandioca, charque, produtos que também faziam parte da sua alimentação que precisava ser prática e substanciosa. O Feijão Tropeiro nascia pela manhã, quando era cozido e parte dos grãos retirados para serem fritos com toucinho, misturados com farinha e saboreados com café. O feijão pagão era carregado e levado para o almoço quando, além do toucinho e da farinha, ganhava a companhia do arroz com torresmo, da linguiça e da carne seca. E os tropeiros iam além, abrindo estradas, criando pontos de comércio que se tornariam vilas, integrando povoados das regiões Sudeste e Centro-Oeste, colocando o Feijão Tropeiro no mapa da culinária do Paraná, de São Paulo, Minas Gerais e de Goiás.

O dançante baião de dois

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A sobrevivência dos  vaqueiros do interior do sertão nordestino inspirou o  “baião de dois”, especialidade cearense que acabou conquistando o Nordeste e estados da região Norte, como Rondônia, Acre e Pará no início do século 20. Consiste em cozinhar o arroz e o feijão juntos e integrar queijo coalho, carne de sol e manteiga de garrafa num só prato. Na Paraíba e em Pernambuco ganhou nata no preparo e virou “rubacão”. Mas o prato ganhou fama nacional na letra da música de Luiz Gonzaga  que também apresentava o novo ritmo musical e dança típicos do Nordeste, o baião.

 “Vou juntar feijão-de-corda
Numa panela de arroz.
Rapidão, vai lá pra sala
Que hoje tem baião de dois!”.

Texto Publicado na Revista Férias&Lazer – Edição 54

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