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CAPA-comida

Viajando nos sanduíches

Um roteiro de viagem descolado pode ser montado a partir dos sanduíches típicos de várias regiões do Brasil, aproximando o viajante do dia a dia dos residentes, revelando muito da cultura do destino.

Quando John Montagu, 4º conde da cidade inglesa de Sandwich, que adorava um carteado, optou pela funcionalidade ao pedir para colocar carne e outros ingredientes da sua refeição entre dois pedaços de pão para que pudesse comer e jogar ao mesmo tempo, não imaginava que essa prosaica solução gastronômica ganharia o mundo e que o nome da sua cidade figuraria mais em cardápios do que em livros de história. Até porque esse jeito de se alimentar não era novidade entre os plebeus do século 19, em plena Revolução Industrial, como uma forma de refeição rápida. A inovação se deu na criação da versão gourmet pelo nobre. O resto é história.

Portanto, o sanduíche tem origem humilde. O Vada Pav, por exemplo, o mais famoso sanduíche da Índia foi criado para as pessoas com dificuldades financeiras e depois conquistou todos os indianos e o mundo. É montado com dois pedaços de pão “pav”, sem açúcar, com recheio de hamburguer vegetariano apimentado feito com batata (vada). O famoso BLT americano composto, como a sigla sugere, de bacon, alface (lettuce) e tomate, surgiu em 1950 e só perde em popularidade para o sanduíche de presunto nos Estados Unidos. O tradicional Katsu-sando, do Japão, é de 1899 e leva simplesmente pão com carne de porco à milanesa e repolho.

Para uma autêntica viagem de baixa gastronomia pelo Brasil, esqueça as versões light, orgânicas, naturebas, de carnes nobres etc. Prefira os tradicionais sandubas feitos com ingredientes típicos ou de acordo com hábitos locais e viva integralmente a experiência, como um residente.

O icônico Bauru do Ponto Chic

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Foi a pressa característica dos paulistanos que, em 1934, levou o então estudante da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, Casimiro Pinto Neto, atrasado para uma partida de sinuca, a ditar ao garçom do bar Ponto Chic, ingrediente por ingrediente, a refeição rápida e substanciosa que precisava: pão francês sem miolo, rosbife, tomate, sal, orégano e queijo. E pronto! Não demorou para os amigos e outros fregueses do bar pedirem o mesmo lanche do “Bauru”, apelido de Casimiro. Apesar de sofrer variações, como presunto no lugar do rosbife, quem quiser provar o autêntico vá ao endereço certo: o Ponto Chic original, fundado em 1922, durante a Semana de Arte Moderna de São Paulo, frequentado por artistas como Mário de Andrade, Anita Malfatti, Monteiro Lobato e outras celebridades da época.

Largo do Paiçandu, 27 – Santa Efigênia, Centro, São Paulo/SP.

O sanduíche de mortadela do Mercadão/ SP

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São fatias e mais fatias de boa mortadela sobre duas metades de um crocante pãozinho francês. Parece simples, mas não é. O cheiro, as cores, o ambiente eletrizante do Mercadão dão mais sabor ao sanduíche mais famoso da cidade. Pois é, mas nem sempre foi assim no Bar do Mané, fundado em 1933. Ele foi criado com o propósito de oferecer vários tipos de sanduíches como opção de refeição rápida que saciasse por bom tempo a fome dos feirantes, donos de quitandas e frequentadores do Mercado Municipal de São Paulo. Foi em 1970, época de preços tabelados, que diante do desagrado de um cliente com a quantidade de recheio de seu sanduíche, que um dos donos do bar resolveu “responder” completando o lanche com uma quantidade exagerada de mortadela. O cliente adorou, quem viu também quis, e a porção extra de recheio acabou ficando famosa.

Bar do Mané: Mercado Municipal de São Paulo: Rua Cantareira, 306 –E-14, Centro, São Paulo – SP.

O energético X-Caboquinho da Amazônia

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Os amazonenses costumam saborear o X- Caboquinho já no café da manhã, seja em casa ou nos bares e lanchonetes da cidade. Como não poderia deixar de ser, leva ingredientes naturais, como lascas de tucumã madurinho (fruto da palmeira tucumã-do-Amazonas, rico nas vitaminas A, B1 e C e de alto poder antioxidante), fatias fritas de banana pacovã (conhecida também como banana-da-terra) e queijo coalho derretido. Tudo isso num pãozinho francês. Procure saborear o autêntico Caboquinho, sem substituir a banana pacovã frita pela banana prata.

O carioquíssimo pernil com abacaxi do Cervantes 

O caprichado sanduba que há 60 anos vem saciando a fome da madrugada de jovens, idosos, trabalhadores, baladeiros, artistas e intelectuais tem sabor agridoce: generosas fatias de pernil, acompanhadas de abacaxi e queijo derretido, num  pão de leite levemente tostado. Ele deve ser saboreado no espaço que o criou: o Cervantes, um dos bares mais tradicionais do Rio, criado em 1955 como mercearia, e que recebeu o título de Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro. Apesar de possuir 4 filiais, ainda é em Copacabana que o sanduba tem um sabor diferente.

Av. Prado Junior,335 – loja B, Copacabana – Rio de Janeiro

O gauchão de beira de estrada

Vale a dica de caminhoneiros, viajantes descolados e turistas acidentais que já pararam às margens da BR381, em Minas Gerais, no município de Bom Jesus do Amparo, para saborear “o melhor pão com linguiça do Brasil”, o  “gauchão”. O segredo, com certeza, é a qualidade dos ingredientes artesanais, preparados pelo próprio restaurante: linguiça de porco, requeijão derretido num  pão francês fresquinho.

O Xis-Coração gaúcho

A grafia engana, mas o som denuncia:  Xis é a melhor versão gaúcha do inglês, cheese, para os sanduíches que têm queijo como ingrediente básico. O que vem depois do Xis é criatividade pura. No caso do sanduíche queridinho dos gaúchos em todo o estado, o Xis-Coração, leva, além do queijo, coração de frango, maionese, alface, tomate, milho e ervilha. Um super Xis-Coração, que serve até 4 pessoas, pode ser apreciado no famoso Xis do Gelson, em Porto Alegre.

Rua Dr. Armando Barbedo, 300 – Tristeza- Porto Alegre

O sanduíche pode ser também um ótimo propósito de viagem internacional, um motivo para levar você à Colômbia, por exemplo, para saborear o “Arepa”, um sanduíche feito com pão de farinha de milho recheado com chouriço e molho de pimentão. Também pode ser a razão para conhecer a noite cubana e apreciar o “Medianoche”, consumido geralmente após as festas, composto de carne de porco, presunto, queijo e pepino no meio de um pão cubano doce, prensado. Em Lisboa, vá de “Francesinha”-  um delicioso e suculento sanduíche que leva uma carne, presunto ou salsicha, coberta de molho à base de cerveja e uísque, queijo e ovo. Bom apetite. Ou seria, boa viagem?

Texto Publicado na Revista Férias&Lazer – Ed. 55

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