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A Paris de Hemingway

Um misto de paixão e pressa, porém não é com velocidade que se deve conhecer a cidade, apenas como um bon vivant, como Ernest.

 

No filme “Meia-noite em Paris” (2010), o protagonista Gil viaja no tempo para a década de 1920. Em certo momento, diz sobre a cidade: “Talvez Paris seja o centro do universo.” A cidade é, sem dúvidas, como a luz que seduz os insetos. Ela atrai com o seu brilho e convida a todos a vivenciar a sua essência: a de que Paris é uma festa! Paris é pura festa e a sua rua é o palco. A rua é o show, aproveite! Aproveite-a do melhor jeito francês que puder, ou melhor, usando o melhor verbo possível: flanando. Andar por aí sem compromisso, sem rumo, batendo perna por Montparnasse, Saint-Germain ou às margens do Sena – atenção, não perca a oportunidade de comprar um bom livro nos bouquinistes, os livreiros históricos da cidade.

Desta forma, é possível reviver o passado, em cada esquina, em cada marco ou e alguma mesa do Polidor, tendo como companhia fantasmagórica para uma bebida com quem viveu os seus dias mais pobres, contudo os mais felizes da vida. Seu nome era Ernest Hemingway, assim como a pequena rue Ernest-Hemingway, presente da cidade a um dos seus filhos adotivos. Chegou como jornalista em 1921 e saiu de lá como escritor. Desembarcou na companhia de sua primeira esposa, Hadley, juntamente com uma legião de americanos, os quais procuravam o elixir da vida: proporcionado pelo câmbio favorável, álcool liberado e o brilho da cidade. Não possuía dinheiro, apenas coragem, que para ele era a mesma coisa que amar. Amou Paris, e quando se é amante da cidade, é recompensado com o que há de melhor.

Ali compôs a patota conhecida como “Geração Perdida”, termo cunhado por Gertrude Stein ao se referir ao grupo composto por Zelda e Scott Fitzgerald, T. S. Eliot, Luis Buñel, alguns futuristas, dadaístas, surrealistas e as vanguardas que rasgaram a tradição. Afinal das contas, todas as gerações são perdidas, ainda mais após uma guerra. Ainda mais que estavam descolados à sua época.
Essa galera era filha da desilusão pós Primeira Grande Guerra. Estavam em Paris para se recompor do que haviam testemunhado e lutado. Buscavam tentar preencher o buraco deixado por morteiros e desvendar os significados dos pesadelos causados pelas trincheiras e amputações decorrentes do conflito. Tentavam se humanizar novamente por meio da arte, tentavam acreditar em dias melhores novamente. E não havia lugar melhor para isso que Paris!

Não era apenas um lugar com uma vida social agitada, era o substrato para executar a vocação de escrever. Assim, Hemingway encontrava a rotina cósmica ideal para elaborar “O Sol também se levanta” entre outros títulos importantes que dialogavam com essa época. Foram anos que a fome foi a disciplina, e o trabalho lapidado em enxugar as frases até a medula. Como um soco lançava as palavras, que aliás, era praticado em lutas de boxe com Ezra Pound. Gostava de tudo que era viril: caçar, combater, lutar. Talvez para fugir dele mesmo, talvez para se encontrar.

A primeira cama do escritor e o primeiro ponto do roteiro ficam no Hôtel d’Angleterre, no apartamento de número 14, na Rue Jacob, 44. O hotel manteve-se original nos dois primeiros pavimentos e oferece a possibilidade de hospedagem no mesmo quarto de Hemingway. Atenção, é preciso reservar com antecedência, pois muitas pessoas querem deitar a cabeça nos mesmos sonhos que o autor.

“No café La Closerie des Lilas escreveu uma parte do livro “O Sol também se levanta” e leu os manuscritos de “O Grande Gatsby”, de seu amigo Scott Fitzgerald.”

Para comemorar ou tomar o melhor brunch da cidade, recomenda-se seguir para o Café de la Paix, em frente à Opera Garnier. Foi ali que Hemingway e sua esposa comemoraram o Natal e estadia em Paris – provavelmente foram buscar inspiração vinda de Maupassant, Émile Zola e Tchaikovsky que também frequentavam o mesmo local.

Outra opção é o Le Pré aux Clercs, um dos cafés mais preferidos de Hemingway, quando a grana estava curta. Está de portas abertas na rue Bonaparte, 30. Vale à pena!

Mudou-se de casa algumas vezes: na Rue Cardinal Lemoine, 74, próximo à Rue Mouffetard e da Place de la Constrescarpe, um apartamento simples, sem água corrente. Mais tarde, mudou-se para rue Notre-Dame des Champs, 113, com a família já maior. Em 1927, casado com Pauline Pfeiffer, descansou na rue Férou, 6.

Para escrever, alugou alguns locais, como um quarto na Rue Descartes, 39. Porém, os cafés foram os locais perfeitos para por as ideias no papel e encontrar os seus companheiros. Tão perfeitos, que em seu livro de memórias “Paris é uma Festa”, relatou todo frenesi que eram os cafés e seus habitués que compunham a fauna intelectual.

Alguns pontos ainda estão abertos, prontos para experimentá-los: Café Panis, Les deus Magots e Café de Flore. Dois, no entanto, são imperdíveis: La Closerie des Lilas e Brasserie Lipp. No primeiro, escreveu uma parte do livro “O Sol também se levanta” e leu os manuscritos de “O Grande Gatsby”, de seu amigo Scott Fitzgerald. Já no segundo, costumava comer o prato pommes à l’huile acompanhado de algumas cervejas e salvar a todos do nazismo, como o fez em 1944, quando entrou no restaurante armado. Pela coragem, recebeu do dono do bar, uma garrafa de conhaque.

Flanava pelos Jardins de Luxemburgo e frequentava o Museu com o mesmo nome, admirava os impressionistas que estavam guardados naquele endereço na época e buscava uma conversa honesta próximo dali, na casa de Gertrude Stein, na Rue des Fleurus, número 27.

Outro local importante para a sua formação como escritor, foi a ícone livraria Shakespeare and Company. A proprietária, Sylvia Beach, era madrinha dos expatriados, patrocinando e editando livros, como “Ulysses” de James Joyce. Hemingway vivia por lá, pegando emprestado livros de autores russos e algum trocado. A livraria atual com o mesmo nome é recente, a versão da Sylvia fechou as portas na época do sítio alemão.

“No prefácio de “Paris é uma festa”, relata como guardou intacta as suas recordações desses anos na cidade.”

Um curioso fato, ocorrido em 1956, no Hotel Ritz: parou para um drink – algo comum, ainda mais quando o bar tem seu nome – e para pedir ao carregador que fosse buscar seus manuscritos dos anos 20, guardados em uma mala na sala de bagagens. Praticamente, uma viagem no tempo como a de Gil em “Meia Noite em Paris”. De certo, Hemingway foi feliz pelas ruas da Cidade Luz, foi atraído pelo seu brilho e sorveu todo o seu elixir. Os anos 20 foram importantes para romper com os dogmas e para preparar para anos não muito gloriosos que se aproximavam.

Como alguém apaixonado, voltou à Paris para defendê-la quando estava em poder alemão: “ Senti um nó esquisito na garganta e precisei limpar os óculos por que ali, naquele momento, embaixo de nós, cinzenta e sempre bela, estava a cidade que mais amo em todo mundo.”

Ao seguir a trajetória de Hemingway, você pode entender mais dos porquês que levam a dizer: Nós sempre teremos Paris!

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