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Pequeno Notável

Cravado entre a Bahia, Minas Gerais e o Rio de Janeiro, o Espírito Santo é destino repleto de surpreendentes belezas históricas e naturais, no litoral e nas montanhas.

Por Ana Laura Nahas

Fundada em 1551, a Ilha de Vitória, capital do Espírito Santo, tem seu traçado intimamente ligado ao cais e às chegadas, partidas e travessias que ali habitam. Erguidos na beira do mar, os galpões do porto compõem um cenário inspirador: guindastes, contêineres, navios e, a poucos metros, uma catedral dos anos 1920, um viaduto feito para um bonde que nunca passou por ele, uma escadaria erguida para celebrar o triunfo do povo local sobre piratas holandeses, capelas e casarios.

Foi o começo de tudo, o começo de um estado de extensão territorial modesta, cravado sem grandes holofotes entre a Bahia, Minas Gerais e o Rio de Janeiro, mas repleto de surpreendentes belezas históricas e naturais. A mistura entre índios, africanos e europeus que formou o povoado reflete o que se vê numa viagem ao território capixaba, com especial atenção à parte mais antiga da capital, às belas praias e à região de montanhas, separada do mar por apenas 40 minutos de estrada.

O Centro Histórico é um charme. Uma caminhada a pé revela não só a imponente Catedral Metropolitana, onde se destacam a arquitetura neogótica e um conjunto de belos vitrais; o Viaduto Caramuru, que jamais foi usado porque as autoridades temiam que não aguentasse o peso do bonde; e a Escadaria Maria Ortiz, uma homenagem à heroína de 21 anos que venceu os invasores com baldes de água fervendo. A pé, vemos também o Convento de São Francisco, a Igreja do Rosário, a Capela de Santa Luzia e o Convento do Carmo, que contam episódios marcantes da vida religiosa e cultural da época colonial.

O Palácio Anchieta, parada obrigatória nessa rota, permite conhecer de perto um pedaço da história do Brasil e, de quebra, tem uma visão panorâmica da Ilha de Vitória. O local, hoje sede do governo do estado, abriga resquícios da construção original e parte dos restos mortais do Padre José de Anchieta, uma das figuras mais significativas da ordem jesuíta no país.

Praias

Guarapari, Praia do Morro

Na vizinha Vila Velha, separada da capital pela Terceira Ponte, estão as praias da Costa, Itapoã, Coqueiral de Itaparica, Baleia, Ponta da Fruta e Barra do Jucu. As três primeiras, na parte central, ostentam melhor estrutura, com calçadão, ciclovia, quiosques, hotéis e restaurantes variados. Menos conhecida, a Praia da Baleia tem mar agitado parcialmente para a prática do surfe. A Barra do Jucu, a cerca de 10 km do Centro, é uma antiga vila de pescadores que conserva o aspecto rústico e bucólico. As ondas fortes desaconselham o banho de mar, mas o balneário é muito buscado por pescadores e surfistas. Para viagens em família, uma das mais indicadas é a Ponta da Fruta, com águas rasas e mansas.

Seguindo um pouco adiante pela Rodovia do Sol (ES-060), chegamos a Guarapari, trecho litorâneo mais movimentado do estado. Entre os destaques estão Meaípe e suas ruas de terra batida, castanheiras, barquinhos e mar calmo; a Praia dos Padres, de mar verde e mata nativa; Setiba, a preferida dos surfistas; e a Bacutia, famosa pelos agitos de verão.

Guia

“Capixabês”

Capixaba não vai para a balada, vai para o rock, independentemente do ritmo musical que embala a festa escolhida. Copo de capixaba não transborda, esburra. Capixaba não diz oi, diz ei. Capixaba chama todo mundo de rapaz, inclusive as moças. Capixaba não pega as coisas, panha. Capixaba não tem agonia, tem gastura. Capixaba não vai embora, ele poca fora. O verbo pocar, aliás, tem inúmeros significados: uma festa animada pocou, um balão que estoura é um balão que poca, lombada na estrada é pocamola. Ar-condicionado no máximo é arcondicionado pocando — exatamente como os moradores do Espírito Santo dizem a respeito do sol escaldante: “O sol está pocando! Vamos à praia?

 

Do mar à montanha

Se a procura, no entanto, for por tranquilidade e um clima mais suave, basta seguir cerca de 50 quilômetros de Vitória, para a região de montanhas do Espírito Santo, especialmente o distrito de Pedra Azul do Aracê, em Domingos Martins.

Trilhas com diferentes graus de complexidade, piscinas naturais escavadas na rocha pela ação do tempo e das águas, passeios a cavalo, atividades ligadas ao ecoturismo, hotéis elegantemente rústicos e muitos restaurantes. É esse o movimento no entorno da Pedra Azul, uma formação rochosa de 1.822 metros de altura coberta de líquens que mudam de cor a partir da incidência do sol. A charmosa Rota do Lagarto tem uma estrutura de hospedagem e gastronomia organizada, voltada para visitantes interessados em frio, sossego e conforto.

Ainda na região serrana, um pouco mais distante (177 km da Pedra Azul e 230 km de Vitória), encontramos o Parque Nacional do Caparaó, que abriga o Pico da Bandeira, terceiro ponto mais alto do país, com 2.892 metros de altitude. Trilhas, cachoeiras e piscinas naturais dividem a atenção com espaços dedicados ao ecoturismo, acessados a partir da simpática vila de Pedra Menina, em Dores do Rio Preto, divisa com Minas Gerais. A subida ao pico é pesada e requer bom preparo físico. Cachoeiras, vales, mirantes e piscinas naturais são opções mais leves, com distâncias que podem ser cumpridas de carro ou a pé, em caminhadas curtas. O visual no alvorecer e no entardecer são simplesmente deslumbrantes.

 

Em Muqui, casario conserva charme e cultura

Folia de Reis em Muqui

O Sítio Histórico de Muqui é um conjunto arquitetônico com mais de 200 construções tombadas, construídas no sopé de morros que circundam a pequena cidade, no caminho ao longo da linha do trem e no curso do Rio Muqui do Sul. Muqui também é um importante polo cultural, com a realização de eventos como o Encontro Nacional de Folia de Reis, em agosto; o Carnaval do Boi Pintadinho, em que cerca de 20 blocos, cada um com seu boi e com cerca de 200 integrantes, percorrem o centro da cidade todas as noites de carnaval; e o Fecim — Festival de Cinema de Muqui, em novembro.

Debaixo da areia

Uma vila inteira soterrada pela areia fina e embalada pelo tradicional forró pé-de-serra: assim é Itaúnas, balneário do extremo norte do estado, a 260 km de Vitória, bem próximo à divisa com a Bahia. A cidade que, na década de 1950, sumiu enterrada pelo vento foi reconstruída pelos nativos ao lado da antiga. As dunas escondem o mar aberto. Embaixo delas, dá para ver a cruz da velha igreja e, vez por outra, encontrar resquícios da vida no povoado: documentos, louças, restos de concreto. Itaúnas guarda também uma das mais importantes manifestações culturais do Espírito Santo, o Ticumbi, modelo dramatizado de uma guerra étnica africana encenado desde a chegada dos escravos. Os tambores e cantos tradicionais entoados pelos guerreiros do Ticumbi compartilham o espaço com o forró: Itaúnas é conhecida como a Capital Nacional do ritmo.

Souvenir

Panela de Barro

Fonte: Iphan

No bairro Goiabeiras, em Vitória, mulheres modelam com as mãos o utensílio sem o qual moqueca capixaba não é moqueca: a panela de barro, um dos maiores símbolos da cultura local e excelente objeto para levar de lembrança do Espírito Santo. Para comprar a autêntica panela, o endereço mais indicado é o Galpão das Paneleiras, espaço coletivo em que as artesãs confeccionam e vendem suas peças. Desde 2002, o ofício das paneleiras de Goiabeiras é considerado patrimônio da humanidade, o primeiro bem imaterial a ganhar o título tempos depois concedido ao samba de roda do Recôncavo Baiano e ao queijo de Minas. Lojas de artesanato, aeroporto e até barracas na beira da estrada também oferecem o souvenir, mas vale ficar atento: nem todas têm garantia da autenticidade do barro e da técnica de confecção como a das paneleiras de Goiabeiras.

Receita

A autêntica moqueca capixaba

Ingredientes:

-1 quilo e meio de peixe (badejo, dentão, robalo, papa-terra namorado ou xerne)

–  3 maços de coentro

– 1 cebola média

– 3 dentes de alho

– 4 tomates

– 3 limões

– Azeite de oliva

– Óleo de soja

–  Pimenta-malagueta

– Urucum

– Sal fino

Escame bem o peixe e corte em seguida em postas de 5 cm de largura. Lave com um limão e deixe descansando em um prato com água de sal fraca. Soque três dentes de alho, três rodelas de cebola, duas pimentas, um maço de coentro e sal. Apanhe a panela de barro e esfregue no fundo um pouco de óleo (umas duas colheres) e azeite de oliva (uma colher). Passe a massa obtida no socador no fundo da panela. Arrume as postas de modo que não fiquem uma por cima das outras. Regue com um pouco de azeite e suco de limão. Deixe descansando de 20 a 60 minutos. Derreta em um pouco de óleo três colheres de urucum e despeje por cima da moqueca para dar aquela cor. Quando começar a abrir a fervura, verifique se a moqueca está boa de sal. Não coloque água, não vire as postas e cozinhe com a panela bem tampada. Balance de vez em quando com o auxílio de um pano grosso para que as postas não agarrem no fundo.

*Receita de moqueca capixaba retirada do livro “Segredos da Cozinha Capixaba”, de José Carlos Monjardim Cavalcanti

 

Viaje com o Plano RDC

Pra curtir a paisagem da serra capixaba, os assinantes RDC contam com o Hotel Fazenda China Park, uma hospedagem diferente, com saídas para caminhadas na trilha ecológica até o mirante para uma vista espetacular da região.

Bom Planejamento!

 

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