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Você é um viajante consciente?

Tirar selfies com botos na Amazônia, mergulhar nos recifes de corais de Maragogi, tirar fotos com cavalos marinhos em Porto de Galinhas. Até que ponto experiências como essas impactam no bem-estar dos animais?

FOTO: DIVULGAÇÃO / WORLD ANIMAL PROTECTION

Parece conversa de chato. Daqueles que gostam de estragar a alegria de quem está se divertindo. Mas é sério. Tão sério que
a questão do bem-estar dos animais chegou ao turismo. ONGs, instituições sociais, educacionais e científicas, ministérios públicos
criam manifestos, estimulam leis, fiscalizam e, principalmente, fazem o mundo repensar o turismo com animais. A World Animal Protection (WAP), ONG criada em 1950, cuja missão vai além do turismo em relação aos maus-tratos com os animais, lançou em 2015 a campanha “Silvestres. Não entretenimento” com o objetivo de dissociar o conceito de “passeio turístico” para atrações com animais silvestres, como shows e caminhadas com elefantes, e direcionar essa demanda para experiências positivas, em que os turistas podem observar esses animais em reservas ou santuários. A iniciativa mobilizou 800 mil pessoas em todo o mundo, com impactos em todas as partes envolvidas, desde fornecedores até os próprios viajantes. Segundo o relatório da WAP, atualmente 550 mil animais silvestres vivem em cativeiro e sofrem agressões físicas e psicológicas em nome desse tipo de atração turística.

Impacto das selfies fofinhas

Em ambiente marítimo, um estudo numa colônia de arraias dos bancos de areia de Stingray City, nas Ilhas Cayman, feito pelas universidades de Nova Southastern, na Flórida e Rhode Island, constatou que alimentar, fazer fotos, segurar ou nadar com arraias, altera gravemente o comportamento dessa espécie em comparação com outras populações selvagens. O mesmo acontece com animais ditos “fofos”, como coala, bicho-preguiça e até menos votados como cobras e jacarés. Vale lembrar o episódio na praia de Santa Teresita, na Argentina, quando dois golfinhos foram retirados da água para que banhistas pudessem tirar foto ao lado deles. Um filhote não resistiu e morreu de desidratação e a imagem correu o mundo. Que lições tiramos disso?

Segundo a ONG World Animal Protection, selfies com animais selvagens no Instagram aumentaram 292%, desde 2014. Ainda a mesma instituição diz que as imagens de coalas, numa única hashtag, somaram 3.000 fotos. Sem contar que, analisando as imagens, a maioria das pessoas aparece abraçando ou segurando os bichinhos de forma inadequada. Parece sem importância, mas esse simples fato impacta na esperança de vida dos animais.

O relatório da WAP “Foco na crueldade: o impacto negativo das selfies com vida silvestre na Amazônia”, envolvendo a América Latina, apontou que 54% das 249 atrações ofereciam contato direto com os animais, como segurá-los para tirar fotos; 35% utilizavam comida para atrair os animais silvestres e 11% ofereciam a oportunidade de nadar com esses tipos de animais. Uma investigação em campo na cidade de Manaus, apurou que dentre dezoito operadoras de turismo, 94% dos passeios havia a oportunidade de segurar ou tocar nos animais silvestres, sendo que 77% estimulavam a prática.

FOTO: DIVULGAÇÃO / WORLD ANIMAL PROTECTION

O fato é que a maioria dos viajantes não tem conhecimento do tipo de impacto que essas ações, feitas repetidamente, podem causar aos animais, tais como tempo de sono reduzido, estresse, doenças, lesões, as quais culminam muitas vezes na morte prematura.

O aplicativo de relacionamento Tinder, solicitou recentemente aos usuários que deixassem de postar fotos com tigres, leões e outros animais e substituíssem-nas por imagens positivas em relação ao meio ambiente, como por exemplo, plantando uma árvore ou caminhando em direção ao trabalho. E, completou em seu blog: “Posar com um rei da selva não te transforma em um rei também”. Novos tempos.

Mudanças na oferta de atrações com animais

Após a campanha da WAP de 2015, a plataforma de viagem TripAdvisor deixou de promover e de vender ingressos para passeios que permitem contato físico com animais em cativeiro ou espécies ameaçadas de extinção. No entanto, em abril, ela anunciou o retorno às vendas de entradas para shows com golfinhos, não entendendo que o condicionamento para obtenção de alimento não representa uma atitude natural do animal, portanto tão cruel quanto o tratamento dos elefantes, cujos filhotes são separados
de suas mães para serem treinados para ficarem submissos.

FOTO: DIVULGAÇÃO / WORLD ANIMAL PROTECTION

Na Tailândia, a Happy Elephant Care Valley, que tinha como maior atração a experiência de alimentar, montar e dar banho nos elefantes, informou que deverá acabar com o contato direto dos turistas com os animais, que passarão a explorar naturalmente o vale em busca de alimento, tomar banho em lama e outros comportamentos da espécie.

Em agosto, a agência de turismo britânica Thomas Cook comunicou que não comercializará mais pacotes para a atração do parque aquático SeaWorld e outros locais que mantenham baleias e orcas em cativeiro. O parque contestou, citando que atende 100% as exigências e padrões da Global Welfare Guidance for Animals In Tourism da ABTA, Associação Britânica de Agentes de Viagens, da sigla em inglês. Acontece que não foi suficiente para a Thomas Cook. Esse caso ilustra bem que ainda falta alinhar muita coisa para atingir um consenso universal em relação ao assunto, que varia inclusive em relação a cada tipo de animal.

Por aqui, o uso de animais silvestres em atividades turísticas é crime desde 1998, conforme artigo 29 da Lei nº 9.605. Diante do movimento mundial e do relatório da WAP, o Ministério Público Federal informou que haverá punição para as empresas de turismo e hotelaria do Amazonas que promoverem o contato físico de turistas com animais silvestres. Elas poderão ter as atividades suspensas, até mesmo os bens e equipamentos apreendidos, incluindo barcos e flutuantes. Pelo lado prático, os botos da Amazônia são o foco da ONG Proteção Animal Mundial que promove atividades em Manaus, alertando a população sobre o impacto das ações diretas sobre esses animais.

Como escolher os passeios

Pesquisa da empresa inglesa You Gov, de 2012, apontou que cada vez mais turistas buscam experiências autênticas em suas viagens, e ao escolhê-las, os clientes procuram ter certeza dos “bons padrões de bem-estar animal”. É bom lembrar, que mesmo dentro de áreas protegidas, muitas atividades não atendem às normas globais de sustentabilidade. Vale saber mais. Comece sua jornada de viajante responsável pelo Guia Turista Amigo dos Animais, disponibilizado no site worldanimalprotection.org.br.

 

CÓDIGO DA SELFIE COM ANIMAIS SILVESTRES, SEGUNDO A WORLD ANIMAL PROTECTION BRASIL

1- NÃO TIRAR UMA SELFIE COM UM ANIMAL SILVESTRE SE:

2- ELE ESTIVER SENDO SEGURADO, ABRAÇADO OU CONTIDO.

3- ESTIVEREM OFERECENDO COMIDA A ELE.

4- VOCÊ CORRER RISCO DE SE MACHUCAR.

 

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